quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Fernando Pessoa sobre eleição de domingo



Entrevistador : Você quer o Aécio ou a Dilma ?
Fernando Pessoa : "NÃO: Não quero nada.  Já disse que não quero nada. Não me venham com conclusões!   A única conclusão é morrer".
Entrevistador: Poeta, o que o senhor pensa sobre a moral na política?
Poeta: Não, Não me falem em moral!  são todos o Ideal de justiça , quando os ouça falar. Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?
Entrevistador: O que você pensa sobre a política econômica do governo Dilma?
Poeta: Falhou  em tudo. Como não fez propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
Entrevistador: Então, o senhor é um tucano?
Poeta: Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Entrevistador : E no futuro, o senhor  pensa em apoiar ...
Poeta (interrompendo o entrevistador) : Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
Entrevistador: O que o senhor pensa sobre a corrupção no Brasil?
Poeta: Eu amo a maravilhosa beleza das corrupções políticas,  Deliciosos escândalos financeiros,  Agressões políticas nas ruas, Como eu vos amo a todos, a todos, A TUDO, 
Como eu vos amo de todas as maneiras, 
Entrevistador: e o mensalão?

Poeta: (Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!) 
Entrevistador: Como o senhor tem percebido a campanha no segundo turno?
Poeta: Notícias desmentidas dos jornais,  Artigos políticos insinceramente sinceros, 
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —  Duas colunas deles passando para a segunda página!  Os cartazes postos há pouco, molhados! Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, 
Como eu vos amo de todas as maneiras,  Com os olhos e com os ouvidos e com o olfato 
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)  E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!  Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós! 

Entrevistador: O que o senhor pensa dos eleitores no Brasil?
Poeta: é uma gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma, Que emprega palavrões como palavras usuais, Cujos filhos roubam às portas das mercearias... A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa  Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.  Maravilhosa gente humana que vive como os cães,  Que está abaixo de todos os sistemas morais, 
Para quem nenhuma religião foi feita,  Nenhuma arte criada,  Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,  Inatingíveis por todos os progressos,  Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida! 

Entrevistador : qual a mensagem você gostaria de dar a nossos leitores?

Poeta: Não me macem, por amor de Deus!  Vão para o diabo sem mim,  
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!  Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo...   E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!