sexta-feira, 25 de julho de 2014

Uma Lição de Heigegger

Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um esportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, – então, justamente então — reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como… Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo… O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas.”
~ Martin Heidegger (1889-1976), em Introdução à Metafísica

A lição interessante do marxismo

                                                                                                             Paulo Ghiraldelli
Em 1989, com a Queda do Muro de Berlim, houve quem escreveu que após vinte ou trinta anos poderíamos ler Marx de um modo melhor, mais filosófico que político. Bem, o tempo realmente passou e o comunismo como política não existe mais. No entanto, o marxismo como filosofia, é alguma coisa útil hoje?
A lição filosófica de Marx não deve ser avaliada como verdadeira ou falsa. Ela não deixa de ser inteligente e criativa e, de certo modo, convincente. É difícil ser filósofo e não reconhecer esses seus dotes. Qual e essa lição?
Marx resolveu olhar para os produtos que vão para o mercado, que se transformam em mercadoria, como que deixando de ter um valor segundo o uso, e adquirindo um valor típico de mercadoria, ou seja, o valor pelo qual se pode trocá-los. Uma vez tendo valor de troca, ou seja, valor em geral, ele seria trocado não por outro produto, mas por dinheiro. Este nada seria senão um elemento de equalização para a facilitação do trânsito das mercadorias. Sendo um número, imporia sua condição de abstração a todos os produtos, a todas as mercadorias. Ora, uma vez que na sociedade tudo pode ser mercadoria, ou seja, tudo pode ser trocado por dinheiro, por uma abstração, teríamos então uma sociedade em que nada mais teria rosto próprio. Todos os rostos se igualariam uma vez igualados ao número, ao elemento abstrato. O reino da abstração daria suas ordens para tudo à medida que tudo que conhecemos pode ser posto no mercado e trocado por dinheiro. A mercadorização do mundo geraria pessoas incapazes de distinguir qualquer coisa pelos antigos valores universais platônicos, como o Belo, o Verdadeiro e o Bem. Os universais desapareceriam subsumidos por um só universal: a abstração enquanto abstração, o rosto sem qualquer formado do número que se ergue ao lado do cifrão.
Analisado isso, Marx postulou que quando a globalização da sociedade de mercado avançasse por todos os poros da sociedade mundial, teríamos o império dessa abstração comando nossas mentes e, de quebra, nossos corações. Seríamos incapazes de olhar para qualquer coisa de modo a enxerga-la sob outra marca que não a marca da abstração, ou seja, o rosto sem rosto, o rosto sem rugas, sem marcas do tempo ou espaço. O rosto sem geografia e história. Os rostos, de tudo e de todos, nada seriam senão rostos de manequins de vitrine ou, pior ainda, apenas uma massa cinzenta incapaz de promover qualquer imaginação.
Não à toa, portanto, poderíamos trocar, não só no trabalho, mas também no amor, mulheres e homens por outros homens e mulheres com facilidade. Mas isso num primeiro passo. Em um segundo passo poderíamos trocar no trabalho esses humanos por robôs, e no amor, pelas bonecas e bonecos acoplados ou não a vibradores.
Haveria uma alteração profunda na capacidade nossa de apreciar coisas e amar pessoas. Apreciamos coisas e amamos pessoas por suas características específicas. Todavia, se tudo e todos não são assim mais mostrados, mas se transformam em dinheiro e este em possibilidade de exibição, temos aí uma “sociedade do espetáculo” – tudo é feito apenas para ser mostrado para o outro. Mas para impressioná-lo não no sentido de despertar nele a velha inveja ou o carcomido ciúme, mas a submissão. Desse modo, não importa que eu tenha uma bolsa feia e inútil, o que importa é que ela seja de uma grife que me faz ser notado como alguém que transita no mercado com desenvoltura, alguém com poder de fazer e acontecer. Pois quem compra uma bolsa daquela marca tem dinheiro para comprar homens, mulheres, políticos, capangas armas e pastores. Trata-se de participar de uma sociedade do espetáculo que não gera narcisistas, como alguns teóricos afoitos vomitam por aí, mas que gera agentes intimidadores que se acham, por sua vez, também intimidados por outros mais intimidadores ainda.
Quando olhamos para o mundo que nos cerca, quando andamos nos shoppings e vemos a TV, quando notamos tudo que é o mundo contemporâneo por olhadelas rápidas na Internet, é difícil não valorizar esses brilhantes insights de Marx. Só então, podemos ver o quanto Marx é atual.
Todavia, se o marxismo realmente é atual, então também ele se torna um elemento a mais na sociedade do espetáculo nesse sentido. Deixo de usar do marxismo para entender a sociedade, e ele próprio, como teoria, passa a ser um dote que apresento no contexto intelectual em que vivo para me mostrar senhor do mercado educacional ou editorial ou mesmo midiático. Pude ter uma educação que me permite dissertar sobre Marx, e desse modo, também eu tenho lá algum poder, e capacidade intimidar e ser intimidado – é o que faço com o meu marxismo. É o que posso estar fazendo agora, neste momento, e poder confessar isso não diminui o efeito perverso, de certo modo até o amplia! Mostro-me como tendo um plus poder ao ser capaz de falar do marxismo criticamente, diferente dos que não poderiam agir assim.
Isso torna o marxismo, nesses aspectos filosóficos, algo bem plausível, pois ele se confirma no momento mesmo que perco a minha consciência crítica na posse do próprio marxismo, como ele disse que ocorreria comigo, nesse mundo em que estou entrando desde meados do século XIX.
Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ – http://ghiraldelli.pro.br Autor do recente Filosofia política para educadores (Editora Manole).


Padrões Linguísticos e as Representações De Dominação



Jorge Mendes Júnior

A língua é um grande instrumento de comunicação que o homem refrata as suas relações sociais. Porém, ela, por outro, lado quase sempre é imposta por grupos dominantes através da opressão dos povos desprovidos de meios bélicos. Esse fato refrata o modo como os padrões linguísticos são impostos.
A conexão do homem com a língua é inerente. Desde seu nascimento aquele vê-se imantado por esta em todas as suas relações sociais. Ele utiliza como forma expressar seus pensamentos e emoções, comunicar com seus semelhantes, entrelaçar as relações mais íntimas.
Contudo, esta mesma língua que o individuo ama não é fruto de um amor divino, é produto de relações mercantis e de poder. O comércio é a guerra sempre foram os meios em que uma língua era imposta aos outros. É evidente que a dominação representa uma forma de poder imediato e passadas gerações, esta é chamada pelo homem comum minha língua. O português, por exemplo, tornou-se oficial no Brasil, após uma opressão de quase dois século extinguindo as línguas indígenas através dos catecismos e dos negros, por meio da proibição e da separação das etnias.
Nesse momento, entretanto, faz mister responder se a partir de a criação da comunidade semiótica: o que se deve ensinar seria um padrão linguístico ou deve ensinar as pessoas comunicar-se bem? É certo que os defensores do gramaticismo defendem a identidade de um e outro, supondo que se o padrão é a língua dos grandes escritores que conseguiam descrever a linguagem em um nível complexo que abrangia a dos demais usuários. Esse ponto de vista, é bastante pretensioso. Os padrões linguísticos nada tem que ver com os grandes escritores que primavam por um entendimento e uma construção de uma identidade nacional que suplantasse as diferenças regionais. É mais coerente pensar que exista uma classe que a partir de interesses mercantis deseja implantar uma língua padrão para suplantar outras classes em seus desenlaces econômicos.
Poderíamos incentivar as diferenças, ao invés do padrão dominante , recriar paradigmas que atendessem às aspirações de cada pequena comunidade semiótica. Nas suas relações de comunicação utilizar formas que não fossem  o padrão do culto, mas que fossem disseminadas na sociedade. Um grande instrumento para a construção dessa realidade são o atlas linguísticos que descrevem a verdadeira língua, ou línguas das comunidades. 
Em virtude dos fatos mencionados, somos levados a acreditar que não existe um padrão linguístico que não seja produto de um longo processo de dominação cultural e que o ensino da língua que reflita a essa realidade só tem poder de consolidar e fazer avançar os ganhos materiais dos filhões desta classe dominante. Desse modo, propomos não um padrão, mas um eixo estratégico que combine reutilize os padrões socialmente aceitos na construção de ensino de gramática que priorize a competência do falante.